quinta-feira, 28 de julho de 2011

A Saga do Pingüim

O mercado dá mostras de estar sequioso por alternativas ao mundo Windows. Estima-se que em três anos o Linux será o sistema operacional número um em servidores, se forem consideradas novas remessas. Seguindo esta trilha, em seu sexto ano, o LinuxWorld Conference & Expo firmou-se como o mais importante evento focado em Linux e em soluções utilizando sistemas abertos. A conferência ocorreu há duas semanas em San Francisco, com um verdadeiro chuá de palestras, sessões de mão-na-massa e encontros de grupos de interesse.
Executivos pesos-pesados de empresas como BEA Systems, HP, IBM, Oracle e Red Hat mostraram como estão aproveitando novas oportunidades de inovar, cortar custos e ganhar produtividade usando Linux e a tecnologia de sistemas abertos. Um dos pontos altos do evento foi a palestra de Nick Donofrio, vice-presidente-sênior de tecnologia e manufatura da IBM, um dos principais arquitetos da estratégia tecnológica global da empresa. Ele mostrou como a Big Blue está apostando alto em Linux no ambiente empresarial. Demonstrou também como funciona o ambiente de negócios “on-demand”, através da integração de funcionários, clientes e parceiros dentro deste ambiente Linux.
Poder: IBM & Linux-on-Power
No pontapé inicial que deu há dois anos em prol da explosão do Linux no mundo corporativo, a IBM liderou uma iniciativa de desenvolvimento de aplicações usando este sistema operacional em máquinas Intel. O resultado foram 4.200 aplicações estalando de novas no mercado. Depois disso, apontou a mira para sua nova arquitetura de 64-bits Power5, como resposta à crescente demanda de aplicações nesta plataforma. Deu também significativos passos para solidificar ainda mais seu comprometimento com Linux no ambiente empresarial: fechou parceria com a Red Hat Inc. e com a Novell Inc.; estabeleceu uma aliança com a escola de engenharia da Universidade de Portland; e desenvolveu um portal web focado em Linux-on-Power, além de outros programas de desenvolvimento de aplicações. Em apenas seis meses do programa Linux-on-Power, o número de aplicações rodando redondas passou de 300 para 600. Seu site DeveloperWorks dedicado a este programa vem recebendo cerca de 320 mil visitas mensalmente.
No Brasil, estima-se em US$ 400 milhões a janela de mercado para o Linux, refletindo a preferência mundial de 40% dos desenvolvedores de sistemas, que escolhem Linux como plataforma ideal para trabalhar. Quem apostou neste sistema operacional há alguns anos viu sua ousadia dar bons frutos. A IBM, por exemplo, vem metendo a cara neste nicho desde 1999, com iniciativas como os LTC (Centros de Treinamento Linux) e os LIC (Centros de Integração Linux) espalhados pelo mundo inteiro, congregando mais de 400 profissionais conectados via internet.
O Brasil não está fora dessa. Em Campinas já existe um LTC, cujo objetivo é treinar desenvolvedores de software para contribuir para a melhoria do kernel (núcleo) do Linux. Além disso, em Sampa foi criado um LIC, sob a égide da sede central que fica em Austin, no Texas, com o objetivo ser um centro de referência no Brasil para clientes desejosos de implantar soluções de software baseado em Linux rodando em hardware IBM. Empresas que contaram com o apoio do LIC falam maravilhas dele, como é o caso da Voxline, que presta serviços de contact center para clientes como a rede Habib's de lanchonetes. Num ambiente crítico, os bambas do LIC daqui junto com os de Austin configuraram à distância os servidores da empresa sem gastar um centavo com viagens.

‘ Um dia as linhas de Linux e Windows vão se cruzar ’
Scott Handy é o responsável, na IBM, pela estratégia mundial de negócios em Linux. Em entrevista ao GLOBO, durante o LinuxWorld, Handy, que já está na IBM há 19 anos, comenta os planos da Big Blue em relação ao Linux e sugere novos modelos de negócios que podem ser gerados a partir do sistema operacional dos pingüins. Handy conta também o que a empresa espera do governo brasileiro quanto à adoção do software livre.
Carlos Alberto Teixeira
SAN FRANCISCO
Qual é sua área de atuação na IBM e na indústria do Linux e dos softwares abertos?
SCOTT HANDY: Sou o responsável na IBM pela estratégia de negócios em Linux, incluindo hardware, software e serviços. Faço o planejamento das atividades durante o ano, definindo em que áreas iremos focar. Em 2004 temos várias áreas de atuação: 1) Infraestrutura, servidores de arquivos e de impressão, firewalls, tudo isso tem sido nosso principal gerador de receita; 2) Blades e clusters. Cerca de 70% dos clusters IBM estão sendo entregues com Linux, como o do Exército americano com dois mil processadores e o do Ministério de Informação e Tecnologia da Espanha, também com dois mil processadores; 3) Consolidação de cargas de trabalho tem sido uma área forte na IBM. Quando se fala em negócios “on demand”, as empresas precisam dispor de uma infraestrutura comum e começam por simplificar o que já têm, às vezes cinco sistemas operacionais ao mesmo tempo. Nossa missão é preparar uma equipe que faça este trabalho nas instalações do cliente; 4) Base de aplicações: temos cerca de 4.200 aplicações rodando Linux e suportando alguma tecnologia IBM, em plataforma Intel ou Linux-on-Power. Em Linux-on-Power passamos de 300 para 600 aplicações. Temos mais de 500 aplicações em Linux para mainframe. Esperamos triplicar o número de aplicações até 2007, gerando mais renda para os parceiros. Já estamos num embalo com Linux-on-Power e começando agora com Linux para clientes. Estamos entrando em acordo com vendedores independentes de software (ISVs) sobre aplicações para Linux no desktop; 5) Países emergentes: temos verbas especiais e foco numa fórmula para abrir centros de Linux, formar parceiros, fazer contato com governos e instituições de educação. A aceitação do Linux nestes países tem sido ótima e o crescimento é fantástico, maior do que nos países desenvolvidos. Linux é o sistema operacional que mais cresce no mundo no segmento de servidores e tem sido assim nos últimos cinco anos.
Se lembrarmos da bolha da internet e do ciclo usual por que passam as novas tecnologias (moda, decepção e maturidade), é possível manter uma comunidade entusiasmada por tempo indefinido com relação a um grande projeto de software aberto?
HANDY: O que aconteceu com a bolha da internet foi excesso de marketing. As empresas gastaram fortunas em suas imagens e marcas, quando na verdade tinham mais valor em tecnologia. Com o Linux se deu o oposto. Não houve marketing no começo, eram apenas desenvolvedores mostrando e usando uma forma melhor de escrever código. Cada módulo que era escrito para Unix era produzido por times isolados, mas no Linux era um conjunto grande de cabeças pensantes, e o resultado era muito melhor. Assim, a partir do momento em que o marketing das grandes companhias entrou em cena, como quando a IBM pulou para dentro desta arena, em 2000, o Linux já estava entregando um milhão de licenças por ano, ou seja, já tinha atingido uma massa crítica de usuários. A história da tecnologia na indústria tem mostrado que algumas coisas precisavam acontecer antes de se atingir este volume crítico. Em primeiro lugar, é preciso que exista uma “killer application”, aplicativo realmente bom que caia nas graças dos usuários. No caso do Linux, foi o Apache, que hoje tem 67% do mercado, líder disparado e um padrão de fato. Outra killer application foi o Samba. Na época da bolha era um monte de ídolos envolvidos, mas ninguém realmente pagando por soluções. No caso do Linux, trata-se agora de uma indústria de muitos bilhões de dólares. Segundo o IDC, a renda envolvendo Linux, sem contar com desktop, é da ordem de US$ 9 bilhões.
Que novos modelos de negócio serão criados em cima da filosofia de software?
HANDY: É preciso haver um modelo sustentável de negócio, algo que gere renda. Mas não será através da venda de licenças de software, e sim através do suporte e das atualizações do software. O sistema operacional se transforma numa “commodity” e o verdadeiro valor se faz naquilo que se empilha no sistema operacional. O dinheiro se faz mesmo no hardware, no software e nos serviços em cima do sistema operacional. No caso da Microsoft há um relatório do IDC demonstrando que para cada dólar gasto com Windows são gastos nove dólares com hardware, software e serviços ligados a Windows. No caso do Linux, pode-se questionar se o usuário paga de fato este dólar, mas o que importa é que 90% do que ele gasta está fora do sistema operacional.
Em quanto tempo o Linux vai ser o líder?
HANDY: Se a curva de crescimento continuar como está não vai demorar muito. Mas é difícil prever com exatidão. Até o fim de 2003, o número de servidores rodando Linux já era maior que o somatório dos servidores rodando os outros sabores de Unix. Este foi um marco, pois agora o Linux só perde para o Windows. O IDC projeta que em 2007 ele pode se tornar o primeiro. Não sabemos ao certo, mas qualquer matemático dirá que um dia as linhas do Windows e do Linux vão se cruzar no gráfico.
Como se faz dinheiro desenvolvendo software aberto?
HANDY: Clientes compram soluções. É preciso estar dentro do real valor de uma solução. As pessoas sempre perguntam sobre os desenvolvedores que estão trabalhando com Linux. A resposta é que eles são “voluntários”, trabalham para alguma empresa. Linus Torvalds, criador do Linux, por exemplo, trabalha para a OSDL (Open Software Development Labs). A IBM tem mais gente desenvolvendo em Linux do que a Red Hat ou a SUSE. São mais de 600 pessoas trabalhando em mais de 150 projetos de software aberto, patrocinados pelo meu time, via Linux Technology Centers. Empresas como HP, Intel e Oracle têm gente desenvolvendo para Linux na comunidade de software aberto. Essas pessoas são funcionárias de companhias que de algum modo lucram com a plataforma Linux. Elas não necessariamente fazem dinheiro vendendo Linux, mas em torno do Linux.
No Brasil, 87% dos habitantes não têm computador e 97% das pessoas não têm acesso à internet. Com problemas prioritários na saúde, educação e transportes, como inserir no contexto a necessidade de diminuir a exclusão digital?
HANDY: Uma das razões pelas quais estamos interessados no Brasil é essa característica da infraestrutura do país, ainda muito imatura. Por isso estamos trabalhando junto ao governo, pois ele pode alcançar de alguma forma estes excluídos. Claramente, os métodos em voga, ou seja, o uso de PCs, não funcionam. Basicamente em virtude do custo. Linux é uma opção mais viável, em função do preço menor da licença. Em termos de hardware, poderia ser adotada a tecnologia de “thin clients”. Uma das vantagens dos países emergentes é que não há tecnologia já estabelecida, não é preciso substituir infraestrutura preexistente. No Brasil, onde ainda não se tem absolutamente nada digital em várias regiões, qualquer coisa nova é positivo, não há legado a ser gerenciado. Além disso, o governo aprendeu várias lições e já se vê disposto a começar com sistemas abertos de modo a não se ver trancado em programas-proprietários logo de início.

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